quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A pastoral da educação da fé – significados e missão

1. O conceito de Revelação

Etimologia: do latim revelare, tirar o véu a…

Concepções: sendo hoje entendida na Igreja como o diálogo entre Deus e a humanidade, cujo ponto culminante é a pessoa de Jesus Cristo, nem sempre a Revelação foi compreendida como este diálogo interpessoal entre Deus e o ser humano. O Magistério da Igreja e a Teologia vêm clarificando cada vez mais o conceito de Revelação. Desde o século XIX o conceito de Revelação cristã evolui, graças a uma melhor compreensão da Sagrada Escritura. Passou-se de uma concepção em chave noética (comunicação de verdades) a uma concepção em chave interpessoal, de diálogo, na qual exerce papel determinante a categoria ‘palavra’. Afirma-se, com o mesmo sentido, que Deus se revela; quem se comunica e Aquele mesmo que fala. É o próprio Deus quem se comunica. O ser humano entra em contacto com um Deus pessoal. Não só conhece verdades acerca de Deus como, principalmente, conhece mesmo a Deus, entra em comunhão com Ele.

Revelação e inculturação hoje: o conteúdo da Revelação foi totalmente entregue por Cristo, e com Ele está concluída toda Revelação salvífica. Não obstante –adverte o Catecismo da IgrejaCatólica, 66 –ainda que a Revelação esteja acabada, não está ainda completamente explicitada. Os apóstolos não puderam explicitar todo o conteúdo da Revelação. Esta tarefa corresponde agora a Igreja até o fim da história. Decorre daí que o conteúdo da Revelação seja captado pelas pessoas de cada época conforme seu horizonte de compreensão e o esforço evangelizador da Igreja. Assim se mantém vivo o dinamismo da Revelação. Conhecer hoje a Revelação não consiste em simples fidelidade ao passado; é também, e sobretudo, abertura ao futuro, actualização da mensagem cristã.

2. As fases do processo evangelizador

Igreja e Evangelização: “A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde séculos em Deus, o criador de todas as coisas para que agora por meio da Igreja, seja dada a conhecer, aos Principados e às Autoridades no alto do Céu, a multiforme sabedoria de Deus, de acordo com o desígnio eterno que Ele realizou em Cristo Jesus Senhor nosso” Ef 3, 8-11

Comunicação eclesial da Revelação, mediante a evangelização: Ministério da Palavra e catequese são elementos fundamentais do processo evangelizador e da mediação da Igreja. Outro elemento constitutivo dessa mesma mediação é o Magistério eclesial ao qual cumpre oencargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita (Sagrada Escritura) ou contida na Tradição (Sagrada Tradição). Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado.

As fases do processo evangelizador: podem sistematizar-se em três as fases / momentos / etapas essenciais do processo evangelizador;

1ª etapa respeita à Acção Missionária que é dirigida aos não crentes (baptizados ou não) e termina quando aqueles que por ela passam descobrem a salvação em Deus por Jesus Cristo e começam a orientar a sua vida e acções para Ele;

2ª etapa respeita à Acção Catequética e dirige-se àqueles que descobriram a Boa Nova através da Acção Missionária e optaram por Jesus Cristo. Este momento é de aprofundamento da fé e integração da vida da Comunidade Cristã: é o tempo da aprendizagem de toda a vida cristã.

3ª etapa é relativa à Acção Pastoral, a qual integra já a actividade dos baptizados na Comunidade, de forma activa, através de serviços concretos, em consonância com a vocação de cada um.

3. Palavra de Deus e Pastoral

«… o tesouro da Revelação confiado à Igreja cada vez mais tome conta dos corações dos homens. Assim como a vida da Igreja se desenvolve pela assídua participação no mistério eucarístico, assim é lícito esperar um novo impulso de vida de uma crescida veneração pela Palavra de Deus…»(DV 26), a fim de que a palavra de Deus se difunda e resplandeça” (2 Tess. 3,1)

Considerando que a transmissão da Revelação ocorre através do processo de Evangelização;

Lembrando que este processo integra três fases / momentos / etapas essenciais;

Tendo presente que estas etapas procuram espelhar a missão eclesial que “recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste Reino na terra” (LG 5);

A acção pastoral deve ser estruturada em ordem à inculturação da fé, tendo sempre presente que a arte de evangelizar é parte do processo de inculturação, consistindo em comunicar a mensagem evangélica conforme a cultura e a linguagem dos destinatários – sem nunca deixar de ter presente no seu horizonte a parábola do Semeador – Mc 4, 3-8)

4. Promover uma experiência de Deus: implicações pastorais

A partir do DGC 111-112, assinalamos duas implicações pastorais fundamentais em ordem à promoção de uma experiência de Deus hoje: integridadee autenticidade na transmissão da mensagem evangélica

Apresentar de maneira íntegra a mensagem evangélica, sem deixar passar em silêncio nenhum aspecto fundamental ou fazer qualquer espécie de selecção no depósito da fé.

Apresentar de maneira autêntica a mensagem evangélica, com toda a sua pureza, sem reduzir as suas exigências, por medo de uma rejeição, e sem impor pesados fardos que a mensagem não inclui, pois o jugo de Jesus é suave.

Como e a quem? – Pistas: a partir das “perguntas que – a todos – nos unem”, redescobrindo a actualidade das obras de misericórdia…

Tomemos por referência dois documentos, a "Carta aos que procuram Deus" da Conferência Episcopal Italiana - documento preparado pela Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, do Anúncio e da Catequese e o texto de Luciano Manicardi, «A caridade dá muito trabalho. Redescobrindo actualidade das obras de misericórdia», o qua faz parte da colecção Poéticas do Viver crente. Trata-se pois de promover uma experiência de Deus, a partir das experiências comuns da felicidade e sofrimento;; experiência da fragilidade; amor e fracassos; do desafio de aprender a amar (...) é que, promover hoje, uma experiência de Deus, passa por redescobrir as obras de misericórdia:

CORPORAIS
1. dar de comer a quem tem fome;
2. dar de beber a quem tem sede;
3. vestir os nus;
4. dar pousada aos peregrinos;
5. assistir os enfermos;
6. visitar os presos;
7. enterrar os mortos.

ESPIRITUAIS
1. Dar bons conselhos
2. Ensinar os ignorantes
3. Corrigir os que erram
4. Consolar os tristes
5. Perdoar as injúrias
6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo
7. Rezar a Deus por vivos e defuntos.
visto que é no hoje da história que podemos manifestar a diferença cristã mediante a prática da urgente caridade, como podemos ler do Prefácio da obra:

“Hoje, porém, os sinais de barbárie e de perda daquilo que a caridade significa –justiça, solidariedade, compaixão – estão perante os nossos olhos e nós próprios somos os seus protagonistas (…). Nesta época de indiferença, somos chamados a redescobrir o essencial, a discernir aquilo que, pela fé, é irrenunciável.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Sono do João

O Somno de João

O João dorme... (Ó Maria, 
Dize áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar...) 

Tem só um palmo de altura 
E nem meio de largura: 
Para o amigo orangotango 
O João seria... um morango! 
Podia engulil-o um leão 
Quando nasce! As pombas são 
Um poucochinho maiores... 
Mas os astros são menores! 

O João dorme... Que regalo! 
Deixal-o dormir, deixal-o! 
Callae-vos, agoas do moinho! 
Ó mar! falla mais baixinho... 
E tu, Mãe! e tu, Maria! 
Pede áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar... 

O João dorme... Innocente! 
Dorme, dorme eternamente, 
Teu calmo somno profundo! 
Não acordes para o mundo, 
Póde affogar-te a maré: 
Tu mal sabes o que isto é... 

Ó Mae! canta-lhe a canção, 
Os versos do teu irmão: 
«Na Vida que a Dor povoa, 
Ha só uma coisa boa, 
Que é dormir, dormir, dormir... 
Tudo vae sem se sentir.» 

Deixa-o dormir, até ser 
Um velhinho... até morrer! 

E tu vel-o-ás crescendo 
A teu lado (estou-o vendo 
João! Que rapaz tão lindo!) 
Mas sempre, sempre dormindo... 

Depois, um dia virá 
Que (dormindo) passará 
Do berço, onde agora dorme, 
Para outro, grande, enorme: 
E as pombas que eram maiores 
Que João... ficarão menores! 

Mas para isso, ó Maria! 
Dize áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar... 

E os annos irão passando. 

Depois, já velhinho, quando 
(Serás velhinha tambem) 
Perder a cor que, hoje, tem, 
Perder as cores vermelhas 
E for cheiinho de engelhas: 
Morrerá sem o sentir, 
Isto é deixa de dormir... 
Acorda e regressa ao seio 
De Deus, que é d'onde elle veio... 

Mas para isso, ó Maria! 
Pede áquella cotovia 
Que falle mais davagar: 

Não vá o João, acordar... 

António Nobre, in 'Só'

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uma volta pelas páginas dos Evangelhos

Sinto-me cada vez mais encantado por Jesus de Nazaré, pela força com que nele se exprime a Vida, o melhor do Ser Humano e o agir de Deus.

E continua a acontecer eu ir dar uma volta pelas páginas dos evangelhos e encontrar-me com lugares de onde vejo as paisagens de sempre de uma maneira nova, e o próprio Jesus me aparece de repente de onde nunca me tinha dado conta que ele saísse ao meu encontro. Eu próprio me vejo novo!

Porque acredito que ele é o Vivente e que
está Comigo como Alguém que se Comunica, quero percorrer todos os trilhos e veredas dos testemunhos evangélicos à procura deste seu jeito de se comunicar. É sempre isso que procuro… porque é isso que ele, re-suscitado pelo Pai, continua a ser/fazer connosco.

A ressurreição não é o anúncio de que ele deixou de ser dos nossos e estar connosco para passar a ser só do Pai e a estar com ele no “quentinho” do Espírito! A ressurreição é o anúncio de que ele já não é só de meia dúzia e está só com esses, mas é de todos e está com todos! E é de todos e para todos com o mesmo jeito que o vimos ser com os primeiros. Foi esse jeito de ser e comunicar-se que o Espírito Santo Suscitou em Jesus no meio daquele povo e daquelas pessoas, e Re-Suscitou como dom para todos os povos e todas as pessoas.

Os Apóstolos, no primeiro anúncio que faziam da sua ressurreição, diziam sempre que tinha sido “ESTE” Jesus que o Pai tinha glorificado no Seu Amor e exaltado na força do Seu Espírito. “ESTE” Jesus do qual depois falam através dos testemunhos evangélicos…

Andei há procura do rosto de Jesus enquanto Mestre, Líder de discípulos e Sábio à volta do qual até se reuniram pequenas multidões… Como é que Jesus ensinava? Rasgos da sua pedagogia no trato com os discípulos… E com as multidões? Qual era a sua postura com as multidões? Como lidava com os adversários do seu anúncio, que não só se metiam consigo como às vezes tentavam “pegar” nos seus discípulos? Quais as experiências que estão no coração da sua sabedoria e da sua liderança carismática? E qual a pedagogia que está presente na sua maneira de ensinar e no jeito de relacionar-se com as pessoas?

O meu “método” para este tipo de procuras é sempre o mesmo: escolho um evangelho e meto-me por ele adentro com os olhos apontados para o que procuro. A partir daí, deixo-me levar…



Pe. Rui Santiago

Ai de mim se não evangelizar (1 Cor 9,16)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Alguns caminhos voluntários...

Plataforma Andaluza de Voluntariado
France Bénévolat
Le Passeport Bénévole

SEMINÁRIO O VOLUNTARIADO NOS PAÍSES DO MEDITERRÂNEO. UMA IDENTIDADE CULTURAL

2011 foi oficialmente declarado, pelo Conselho de Ministros da União Europeia, Ano Europeu das Actividades Voluntárias que Promovam uma Cidadania Activa. Até mesmo para quem olhe “de fora”, isto é, sem qualquer outro enquadramento senão o constante da Resolução do Conselho de Ministros n.º 62/2010, é identificável o objectivo de sublinhar a dimensão – diremos mesmo, a vocação – voluntária de toda a pessoa (toda a pessoa é vocacionada, ou seja, chamada, ao encontro com o outro, ao dom de si mesmo, à dádiva…)
O Seminário promovido pelo Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado sob o tema O Voluntariado nos Países do Mediterrâneo. Uma Identidade Cultural, decorrido na Fundação Calouste Gulbenkian nos dias 23 e 24 de Maio, permitiu confirmar, aprofundar e consolidar esta leitura, concedendo-lhe razões, fundamentação e destinos.
Fizeram-se presentes Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Malta, através de Adriano Moreira, Acácio Catarino, Luís Miranda Pereira, Manuel Craveira Campos, Fernanda Farinha, Pedro Telhado Pereira, Ana Delicado e Rogério Roque Amaro (Portugal), Francisco J. Santolaya e Manuel Garcia Carretero (Espanha), Edith Archambault e Susana Szabo (França), Gregorio Arena e Renzo Razzano (Itália), Alex Afouxenidis e Angeliki Boura (Grécia) e ainda Andrew Azzopardi e Robert Farrujia (Malta).
No final da década inaugural do Século XXI, os Países do Mediterrâneo constituem a nova fronteira da pobreza, inequivocamente deslocada do Norte de África para os Países do Mediterrâneo.
É neste contexto – pobreza, decadência cultural, crise generalizada – que o Voluntariado emerge ou se lhe dá maior relevo, enquanto força socialmente responsável e economicamente solidária (o Voluntariado é responsável – dá as respostas necessárias à realidade presente e é solidário – opera in solidum, ou seja, conjuntamente).
Terminado o Seminário, queremos e cremos, sintetizar a leitura que dele fazemos por via de um conjunto de interpelações:
- o continente europeu é a casa de uma imensa força social, económica e politica cujo potencial  está ainda por relevar. Trata-se do poder do Voluntariado, 100 milhões de europeus segundo os dados mais recentes;
- a força deste Voluntariado e a necessidade da sua plena activação em ordem a um futuro sustentado e sustentável devem suscitar a revisão do Tratado de Lisboa no referente à exclusão de referência às origens cristãs da Europa;
- com efeito, o multiculturalismo pacífico que dá razões à esperança da qual o Voluntariado é portador é uma herança cristã (da qual Paulo de Tarso constitui e mais paradigmático exemplo);
- sendo ainda de sublinhar que o conceito de Comunidade é incontornável para a consolidação de uma Voluntariado autêntico, ancorado na vida e nas realidades, capaz de alimentar a economia da dádiva (à qual subjaz a economia do dom, dos talentos). A necessidade incontornável da Comunidade reitera o apelo à origens cristãs da Europa: com efeito, a expressão do seu modelo está patente em Act 2, 42-47 (a fracção do pão, a oração, o ensino dos apóstolos e a comunhão fraterna);
- a promoção do Voluntariado constitui um decisivo apelo à criatividade: que mecanismos para o reconhecimento das competências que o seu exercício desenvolve em cada pessoa); como pode o trabalho voluntário constituir-se em real forma económica de troca?...
Por fim, uma derradeira interpelação em forma de esperança:

“Never doubt that a small group of thoughtful, committed citizens can change the world; indeed, it's the only thing that ever has” – Margaret Mead

… afinal, este “pequeno grupo” está estimado em 100 milhões de europeus: que esperamos nós?